terça-feira, 6 de abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Cacofonias do ser só

Com as inflexões soltas e a reflexividade de um pronome modesto, cavalgava suas experiências no lombo de homens perdidos na carência. Uma cerveja aguada sabor groselha, duas, três, quatro... E um sábado escuro de lambidas na orelha. E as pretensões nervosas. E os dedinhos do pé estalando. E a noite brilhando. E as mentiras de fim-de-semana. E o prazo expirando na segunda. Ela sabia que uma revolução não é feita de meias. Ela tinha máximas que justificariam qualquer justificativa, discursava afetividades de ovo de boteco e emendava um jazz. Ela lá lá lá lira...! Prenome indefinido.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Da série R/C

Quando comecei a pensar a arte pública como meio para o texto, como pretexto para a poesia e, como, também,ferramenta sócio-política, não tinha nem idéia de como a prática me seria impactante. A potência dialógica da coisa é tremenda, ainda mais quando considerado o local da intervenção/mensagem/obra, o homem da foto é um reflexo de todos os outros em situação de mendicância, um homem sem rosto. Esse lambe-lambe, como é bem comum, não durou muito tempo, na verdade durou o tempo da cidade, o ritmo ditado pela urbanização e suas questões . No dia seguinte a Nova Rio retirou, mas nesse caso signo e o diálogo formadores da aderência são mais importantes que o objeto em si.


*Em tempo: Parte de um trabalho meu com a Cassia.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um dia

Abriu a sacola do mercado que havia esquecido há 3 dias sobre o sofá rasgado da sala. A espuma verde do estofado velho, a sacola plástica, o líquido de carne apodrecida se espalhando pelas coisas. Revirou a sacola, tirou uma lata de não sei o quê, cinco quilos de arroz num saco bege, um real de pão e a carne. Levou-a pingando até a cozinha, atravessou o corredor de casa deixando uma trilha fétida e viscosa de morte. A barriga roncava à fome e ressaca. Jogou o saco da carne na pia, rasgou, abriu a torneira e deixou a água escorrer. O vermelho se misturando, se diluindo, o cheiro se esvaindo aos poucos, a barriga ainda roncando, a cabeça latejando a cerveja de ontem, os olhos e a boca ressecados, a água descendo... Pegou a frigideira dentro do armário, jogou meia lata de óleo, testou as quatro bocas do fogão, acendeu a única que funcionava, pegou parte da carne, jogou sal e fritou. Mastigou a seco e foi para seu quarto mudar de roupa. Se arrumou atrasado pro trabalho. Rasgou fotografias. Esqueceu de escovar os dentes. Tudo na mesma manhã em que soube ter nascido de cesariana.

Encostada ao balcão sem grandes expectativas

Ó, é hambúrguer sem queijo. Moça, tem troco pra dez?Se for em moeda agradeço,viu?! Ah, pode trocar o tomate pela cebola? Prefiro... Dizem ser melhor pra circulação e tal. Não acredito em muita coisa, só em Sartre e nas cebolas... Sabe moça, crescer dói e não é só nos ossos que a coisa pega. É eu sei que você sabe. É só retórica, moça... É pra dar a falsa impressão de que o tempo tá passando rápido e a espera não ser tão angustiante, puxar assunto e blá. Adoro! Não posso ver ninguém calado, o tempo e o preço do feijão sempre rendem algum assunto. O quê? Não come feijão? E sua saúde? Bom, além de Sartre e as cebolas, tenho tentado acreditar no feijão também. Aos poucos vou adicionando importância às coisas e a vida vai ganhando sentido. Tá vendo essa tatuagem aqui, essa aqui ó... Então, pois é. Bonita né? São dizeres em sânscrito. Nem sei o que significa, cada semana invento uma tradução pra ela. Já comi muita gente com essa história! Tá rindo? É verdade! Sou mulher, tenho que ter esses truques, não uso maquiagem. Ahh, que isso!Simpática eu? Tem que me ver de bom humor... Não tô bem hoje. Acordei, tomei um calmante, um gole de suco de caixinha e vim pra cá almoçar. Moro só e não tem nada na geladeira com menos de dois meses. Fiquei com medo. Isso, isso, sem queijo!


*Deu vontade de publicar novamente.

*Leia com música. Escolha a sua.



terça-feira, 23 de março de 2010

Direito à Cidade

Fórum Social Urbano é aberto com manifestações e discurso de intelectuais

Realizado no Rio de Janeiro, o evento reúne milhares de pessoas e é um contraponto ao evento oficial das Nações Unidas



Foi aberto ontem, dia 22/04, o Fórum Social Urbano, no Rio de Janeiro. Após uma manifestação que aconteceu pela manhã em favor do direito à cidade – e que foi duramente reprimida pela polícia nas proximidades do fórum oficial das Nações Unidas – aconteceu a palestra que deu início ao evento.

Na mesa de abertura, importantes intelectuais ligados aos principais movimentos sociais urbanos. Foram convidados a urbanista Raquel Rolnik, relatora da ONU pelo direito à moradia digna e professora da FAU-USP, o norte-americano David Harvey, professor da Universidade de Columbia (EUA) e Erminia Maricato, também professora da FAU-USP. O professor Peter Marcuse, professor da Universidade de Columbia não conseguiu chegar a tempo por conta de um problema com o visto, mas enviou o texto que leria durante o evento.

Na íntegra: http://www.diplomatique.org.br/acervo.php?id=2278&PHPSESSID=e0f67c3e36e67655f8e36dc026ed8584

domingo, 21 de março de 2010

A ciência da arte

Logo cedo 3 ônibus e uma garganta inflamada pela chuva e resquícios de boemia. Segunda-feira nas barcas, reunião para abertura do semestre na pós em Artes da UFF. Tossia tanto que a cabeça doía. Difícil manter a concentração no que quer que fosse, apreendi o máximo que pude entre goladas de cinco ou seis copinhos de café e uma estilhaçada no biscoitinho da cesta. O mestrado e suas exigências, passo a passo. Apresentações e regras de sobrevivência possível. “Isso assim assado até maio no máximo”; “Os prazos não são lá muito esticados”; “Temos uma exposição a ser feita. Quem participa?” ; “Já conhecem as revistas? Uma delas foi usada na seleção de doutorado da UERJ. Quem quer escrever nela?”; “Tchau e boa sorte!”

O primeiro dia daquilo tudo começava em tom de ameaça amistosa e coceira. Senti acolhimento, creio que minha pesquisa será bem feita, as intenções são as melhores e já tenho orientador escolhido. Mantive o foco na respiração e deixava o fluxo do pensamento seguir seu próprio ritmo frenético, não me ative. O espaço era de absorver o novo, de me estabilizar no que, nos próximos dois anos, tomaria parte da minha vida. Espaço e momento de olhar na cara de com quem a convivência se daria. Percebi que além de tudo, meu Modus operandi é de artista, minha intuição, meu jeito de pesquisar, de lidar. Estava no meio de alguns, tenho a quem pedir ajuda futuramente. Aquela insegurança de quem não sabe pra onde ir, de qual palavra escolher no momento da criação, no momento do poema, bateu. Por vezes queria ter a sensação de segurança de ter chegado a algum lugar. Paulo José diz que isso é pros idiotas, insegurança bem usada já fez maravilhas na arte e que nos dá a dimensão do humano.

Cambaleante na tosse percorri a trilha dos restaurantes baratos do Ingá. Almoçar, trocar meia dúzia de palavras de incentivo e boas-vindas com os convivas e assistir a aula inaugural da temporada: “Teoria das estranhezas”! Para além do nome intrigante, descobri um professor de nome igualmente esquisito e apaixonado pelo ofício da coisa. Um ser que propõe o estudo da etimologia do objeto, das palavras, e da palavra “objeto” e que, entre mil coisas, defende a idéia de serem alucinação e realidade, coisas iguais. Coisas que só se dissociam de acordo com o ponto de vista. Cada qual estranha de uma forma o protomorfo alheio. No dia seguinte, “Arte e sistemas semióticos” e a tarefa de apresentar um livro do Barthes para um homem que tem pós-doc em... Barthes! O homem é bem-humorado. O homem demonstrou preocupação com minha tosse. Não será tão terrível. Chove muito e teria mais uma aula na semana, precisaria de mais saúde. A tosse aumenta. Duzentas coisas para ler. Uma nova amiga me acompanha. Vou me desligando. O foco é conseguir chegar bem até as barcas. Assim, a mente em silêncio com barulho de ônibus

sexta-feira, 12 de março de 2010

Trem azul. Sol na cabeça





Viajar é ótimo! Encontrar coisas interessantes ou intrigantes, escolha o seu adjetivo, é igualmente ótimo. Peça uma pizza e anote as "Dicas para viver com entusiasmos". E lide com isso! rs

sexta-feira, 5 de março de 2010

Abra a porta, entre!

Pronto! Gravura da Lyrio e Diagramação do Victor e a casa nova!
Pra celebrar uma música do Hurtmold...

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Gravura


"Um café pra dois" gravado. Cassia disse que foi pra mim... Diz ela. rsrs

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Método de cozimento a vapor

Não estava disposta a estabelecer um relacionamento entre mim e ele. Algo de terrível dispunha-se inteiro ante minhas intenções mais razoáveis de vida a dois, uma espécie de derrame de lucidez, espasmos de realidade atravessada na coluna, no canto dos olhos, no fôlego. Me propus ser acintosamente feminina, feminina de esmalte e cabelos lavados, o tipo de fêmea que surge no ideário grisalho dos machos médios.Tudo dependia de atributos e retornos, de um samba sincopado dançado às três da manhã com um qualquer de pau duro e sorriso de alface. Era preciso manter a sociabilidade, um micro território relacional intermediário, abrir para outros minha superficialidade indigna. Convívio raso e encontros casuais, felicitações em mictórios públicos, no grau de aleatoriedade que os amores saudáveis deveriam ter, se houvesse saúde nas relações. Minhas experimentações me levavam ao estágio primário do ser humano, entendi ter sido feita para relacionamentos curtos, para doses pequenas. Sentia que sujeitos desconhecidos me encarando com fervor e carência era o ápice da sensação de arrebatamento, não só eu fui feita para relacionamentos curtos, como minhas tetas foram feitas para contatos breves.


Como de praxe, me sentia tomada por um desejo insaciável. Encontraria com ele logo mais à tarde, já sabendo de sua insistência em matrimônios e bolos de glacê e, ainda que ultimamente parcimoniosa nas demonstrações de afeto, não me furtava às fodas de fim de tarde. Coisas a serem guardadas na memória da pele, no tato do falo. Nesse ânimo segui aos preparativos festivos de calcinhas e outras civilidades eróticas e, na quietude de fêmea indócil, escorava pelas paredes como que tentando frear. Segui pelas ruas convocando meus recursos, me controlando, me limitando à passagem dos carros e senhoras comendo paçoca. Um dia cinzento, daqueles que vemos em noticiários de TV: “Dia cinzento mata 4 no Rio de Janeiro”. Era assim.

Borrada em cinza dobro mais um quarteirão, atravesso a rua, olho para os lados, ajeito predicados, fortaleço o egoísmo, cuspo o chiclete gasto na calçada, entro em seu prédio, abro a porta, me dissolvo. O cheiro áspero que os perfumes masculinos tentam sublimar permeia o ambiente. Ele um homem triste. Eu, toda oferenda. Não me interessava sua vida, apenas seus desdobramentos. “Linda” ele diz, já me pegando por trás com a mão esquerda estendida nas ancas, afrontando o corpo num tesão travestido de educação e postura, com a fome do sexo tardio, com o gozo ansiando o momento do sim. Sua voz me atinge o diafragma, me atravessa quente e macia, estimulando contrações musculares involuntárias e pensamentos lascivos e inconformados. Eu vociferava com o corpo avulso e lhe lambia as esquinas com a devoção de um monge, gemia minhas úlceras com a entrega de quem espera a morte.

No meu sonho o cheiro do seu sexo me confortaria naqueles momentos em que a vida arde. Seria o júbilo dos dias desfavoráveis e me convenço por instantes em contrair núpcias como se um drama que legitimasse minha vida, como se à espera do caralho prometido, do brigadeiro nos sábados de eu-te-amo-querida. Eu me verteria em penumbra silenciosa sabendo que, no pós-coito seria a mulher da sua vida. Neurótica e estridente visualizava o que poderíamos ter. Teríamos bichos em volta. Um cachorro pequeno e portátil para facilitar as viagens e a vida de apartamento, o chamaria Roberto e a solidão se dissolveria nos latidos e passeios a fim de aliviar suas necessidades diárias. Roberto seria feliz conosco. Roberto não usaria meias. Não simpatizo com Roberto. Não me satisfaço com as benesses do verbo. Minhas cicatrizes observadas por estranhos confortam mais. Caminho pra vida e na minha cama bate sol.