


Narrando um número de dança contemporânea de Marina Pacheco e Italmar.



“O mundo vai se acabar num terreiro em João pessoa.” Um pai de santo me disse enquanto eu arrumava o material do despacho. De certa forma sentia aquilo acontecendo, a vibração de um término se anunciava nitidamente e chacoalhava meus ossos, de forma que a única alternativa cabível era acreditar. A meu lado esquerdo, uma moça esperava ser atendida, certamente procurava uma resposta, eu já tinha a minha. A meu lado direito, um pouco mais à frente, uma grande mesa de madeira lixada e sem pintura com coisas
Tentava digerir e exercitar o desapego desde já, não conseguia. À medida que pensava nas coisas com meu desprendimento recém-adquirido, mais eu me apegava, mais eu sentia saudades. Meu esforço era inversamente proporcional aos resultados obtidos. Pensava em minha casinha modesta em Austin, com toalha de plástico na mesa de jantar e sofá amarelo em frente à TV, minhas cortinas com estampa de flores do campo e uma imagem de oxum na parede... Meu galinheiro no quintal de casa, minha goiabeira que nunca dá goiabas, o macarrão grudado com galinha a molho pardo que minha mulher sempre faz pra mim aos domingos e que só agora, acho uma delícia... A caminhada de 40 minutos trilhada de madrugada até a estação do trem, a viagem interminável até o trabalho e ver o dia nascendo dentro do vagão sem ao menos, conseguir me mexer... Isso vai fazer uma falta! Sem falar nas noites furtivas com Irene, minha doce namorada, nos motéis fuleiros da Avenida Brasil.
Nunca senti medo e agora estou sendo tragado por ele. Adiantaria tentar desviar o pensamento para outras coisas, se as “outras coisas” também vão acabar? E se não conseguir terminar minha laje? E se a foto não ficar pronta? E se não conseguir pôr a cachaça do santo? Sexta-feira é dia de oxalá.