segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Furtivo, casual e arrebatador

Ela encontra um conhecido. Passam em direções opostas. Ela continua andando passos fortes e trança as pernas numa sandália rasteira. Ele chama. Ela ri. Ele com lágrimas em cascata a segue e diz: “Vem comigo?” Ela debocha e passa a mão nos cabelos. Ele soluça um pranto sincero e pergunta o que ela quer. Ela diz querer empada de frango, mas se tiver de camarão ela come. “O amor é uma questão de hora certa” Ele dispara. Ela diz estar atrasada e, com olhos soturnos questiona as próprias olheiras. “Não beba demais, nêga!” “É só por hoje” ela ironiza.

Ela anuncia sua ida à Cingapura, diz que será em breve e que por enquanto vai inventando uma lua nova a cada quarteirão. Ele diz-lhe coisas dizendo-se coisas, reafirma sentidos e opiniões enquanto cospe conselhos àquela. Ela, alegando pressa e fome, segue andando sem olhar pra trás. Louco, ele a percebe se distanciando aos poucos e tropeça um “você me ama?!” Irônica, para, vira o rosto e diz: “Depende... O que quer ouvir?”

8 comentários:

eduardo disse...

Belo conto.

william disse...

Gostei, com o seu caracteristico inicio brusco, enxuto sem delongas.
Questão de hora certa e ela diz estar atrasada,sem olhar pra trás.
Uma personagem feminina não dando o braço a torcer, fugindo pelas esquinas, saindo pela tangente.
De imediato ao ler essa prosa me veio à cabeça um poema do Vinicius, "as mulheres e o tempo', que foi recitado no Sarau na casa do Isaac, abaixo uma parte do poema:

"Vai que ela diz:
jamais falo contigo de novo
Vai
Que ela diz: te amo
Pra sempre
Vai, que ela chora
E sempre que chora
Diz que nunca vai te perdoar
Ou que ela some
Vai morar num bueiro, sei lá
E nunca mais volta
Vai que ela tem razão
Tá bom, tá bom...
Isso nunca
Mas vai que ela pensa que tem
Sempre?
E nunca mais deita do teu lado
Segura tuas mãos
Mexe nos cabelos
Etc., etc., etc

III
Adequado é que não pode ser
Uma coisa dessas
Só uma, vai que mata
Imagina todas elas juntas?
Elas deviam pensar mais em nós
Ser mais frágeis, eu acho
Não sempre,
Mas às vezes seria muito melhor"

beijo e até.

p.s esse faz parte do livro?

Felipe Malta disse...

Gosto!
É dos novos?
Beijo

Heyk Pimenta disse...

Phoda, com ph de pharmácia.

que legal. que legal, cingapura e tudo.

caramba rachel da silva, isos aí tá dando caldo.

essa vc acertou a linguagem, sem vocabulário dificilzinho no meio, tudo corrente e com insights muito bons.

É isso aí.

Agora escuta: voltei à ativa, no veneno. postagem nova lá.

mudei o endereço do blog: http://heykpimenta.blogspot.com

vamos juntos.

abração

Rafael disse...

como comentar o inusitado,o cotidiano sem entrar no
mérito?
a vida e assim mesmo; muito maior que o sonho.

Flávio Corrêa de Mello disse...

Olá Rachel,

você está se especializando nos contos curtos hein...

E o meu livrinho, quando pinta?

Aproveito e te convido para ler a entrevista que fiz com o peota Mauro Gama, está lá no rio movediço

Márcio Palmeira disse...

Oi,

Vai quando para Cingapura?? RRSS!!

Victor Meira disse...

Detesssstáááááveis pessoas essas suas personagens, Rachel. Sequinhas, bem construídas, sem sobras, sem restos.

Gostoso, asqueroso.
Massa!