segunda-feira, 22 de junho de 2009

Gesto- ação

Tive um filho. Um filho de umas semanas. Um filho com tudo que os outros têm. Olhinhos, boquinha pra dizer meu nome e me abrir largos sorrisos no sugar diário do leite. Sim, eu produziria leite numa quantidade descomunal, de mim jorraria um manancial quente e terno. A nutrição mais exata, mais forte de um indivíduo, viria de mim. Me sentiria uma grande semeadora, uma jardineira com títulos e honras. Especialista em botânica telúrica!! Pessoas me parariam na rua, questionariam a chave do sucesso, a receita de pezinhos tão gordinhos e bochechas- de- propaganda- de- fralda. Teria um sorriso pronto, um sorriso falso, diria não saber, estimularia a inveja sem nenhuma culpa. Não daria logo um nome, deixaria o tempo me indicar as pistas, chamaria prontamente de “amor” e testaria as possibilidades. Uma grande brincadeira calcada na idéia de liberdade, o nome do “amor” iria acontecendo ao longo do tempo enquanto meus peitos engrandecidos de orgulho e substância lhe preencheriam as histerias dos choros incompreensíveis. Eu seria a tal, a grande fodona que porta o “amor” inominável, a que não precisaria de ninguém, a que se julgaria maior que tudo, teria uma grande compaixão das almas menores e fracas. Creio até que cresceria uns 10 centímetros, teria que comprar roupas novas, talvez até sapatos. Flutuaria sobre os reles mortais, impávida e triunfante. Quando ele, o “amor”, segurasse minha mão, sentiria a força de um furacão, de um tornado, sentiria o impacto de um tiroteio, de uma bala perdida. Sentiria a força e a fragilidade se alternando dentro de mim. E, ainda que sua visita tenha sido inesperada, te hospedaria por mais tempo com grande alegria, com meus mais puros sentimentos, em estado bruto.

4 comentários:

Mari disse...

que beleza isso aqui, poeta.

dudv disse...

Forte e muito bonito.

Luanda Morena disse...

Nossa!

Ana Cê disse...

Delicioso esse texto!!
Como um vinho bom em noites frias!!!