domingo, 29 de junho de 2008

Um dia

Abriu a sacola do mercado que havia esquecido há 3 dias sobre o sofá rasgado da sala. A espuma verde do estofado velho, a sacola plástica, o líquido de carne apodrecida se espalhando pelas coisas. Revirou a sacola, tirou uma lata de não sei o quê, cinco quilos de arroz num saco bege, um real de pão e a carne. Levou-a pingando até a cozinha, atravessou o corredor de casa deixando uma trilha fétida e viscosa de morte. A barriga roncava à fome e ressaca. Jogou o saco da carne na pia, rasgou, abriu a torneira e deixou a água escorrer. O vermelho se misturando, se diluindo, o cheiro se esvaindo aos poucos, a barriga ainda roncando, a cabeça latejando a cerveja de ontem, os olhos e a boca ressecados, a água descendo... Pegou a frigideira dentro do armário, jogou meia lata de óleo, testou as quatro bocas do fogão, acendeu a única que funcionava, pegou parte da carne, jogou sal e fritou. Mastigou a seco e foi para seu quarto mudar de roupa. Se arrumou atrasado pro trabalho. Rasgou fotografias. Esqueceu de escovar os dentes. Tudo na mesma manhã em que soube ter nascido de cesariana.

7 comentários:

eduardo disse...

Ácido e com conto.

Victor Meira disse...

Acho ótimo o fim. A mudança de velocidade, de densidade, que acontece no fim. O desenrolar é fotografia e textura. O fim é idéia, suco concentrado e gostoso.

Adorei, Rachel.

(ah, é "raquél" ou "reichel" que cê fala?)

sabina anzuategui disse...

nossa. gostei.
mas prefiro o meio: lavar e fritar carne podre.

ah: se você tiver energia de vir a sp para um lançamento/chopp com 3 ou 4 pessoas, podemos marcar mesmo!

tem até quarto de hóspedes aqui em casa, se precisar.

bjs e boa semana!

Heyk Pimenta disse...

que legal a cesariana fechando essa coisa.

engraçado, rola uma auto-vingança, ao mnesmo tempo com um ar de "tudo na mesma manhã em que as pessoas passavam lá fora"

O limite que a cesariana tem aí entre ser terrível como a carne pobre ou normal como não escovar os dentes dá uma cor muita boa pra essa conversa.

adelaide amorim disse...

Te um clima comum a muitos textos seus, Rachel. Isso é ótimo, é uma marca própria, um jeito de filme trash.

Heyk Pimenta disse...

estilo filme trash, assino embaixo e ainda bem.
ainda bem que temos uma menina que não mede nojo, que arrebenta.

tô cansado de comportadinhas das letras, né?!

isaac disse...

podescrer, o detalhe final é crucial no texto, coroando-o, visto que o próprio miolo é total sensorial e repleto de imagens.

gosteizão do texto, ainda me sinto como esse cara descrito aí, não tem como não sentir ..