sábado, 28 de fevereiro de 2009

Passagem

Tirou seus pertences da bolsa de tecido colorido comprada na lojinha do chinês da esquina e fez uma breve avaliação do que deveria ou não ser posto fora. O tecido, semi-translúcido ao sol, destoava de seu figurino em tons de bege. Era uma mulher discreta, sempre fora. Não haveria de ser agora, após o surgimento dos cabelos brancos e das varizes mais profundas, que mudaria. Não era de mudanças também. Ao todo suas características mais marcantes eram essas, a discrição e a aversão à mudanças, além dos lábios grandes, agora menores e pendentes em sulcos marcados na pele flácida de gozos e dissabores.
A questão era simples, ver o que prestava ou não e jogar no lixo. Uma seleção das tranqueiras que as feminices suportam. Recostada ao poste, sem eira nem beira, passagem subterrâneas de ida, apenas ida, teve um lapso de memória. O sol era forte. As pessoas olhavam. Sentiu a pressão oscilar e a vista falhar, mais uma das sacanagens que lhe chicoteiam a existência. Perdeu-se em meio à caixas de remédio e receitas velhas. As chaves de casa e a foto 3X4 do neto mais velho pendendo das mãos enrugadas. Talvez fosse Alzheimer, atestou a medicina. Desmaiou no chão de urina. O relógio marcava 12:30 e 40º à sombra.

6 comentários:

Raphael Vulgo Cidão disse...

Esse chão com urina nãofoi muito proveitoso não, principalmente pra ela rsrs

Gaja disse...

gostei da demora, poderia ficar só na bolsa que já tava bom.

dudv disse...

Seu texto está madurecendo e ficando muito bom.

adelaide amorim disse...

O que a vida tem de leve pode se transformar de repente em episódio de horror. Faz parte. Cuidado com o calor! ;)
Beijo pra você, menina, e apareça, também tem café.

adelaide amorim disse...

Rachel, deixei um selino de presente pra você lá no Umbigo do Sonho. Passa lá!
Beijo.

Victor Meira disse...

Recorte pesado, Rachel. Muito bem narrado, muito bem conduzido.