terça-feira, 22 de abril de 2008

A espera é cruel e arde

Levanto de madrugada e vou em direção ao banheiro. Sento na tampa do vaso, cruzo as pernas e acendo um cigarro, em questão de minutos começo a sentir o mundo girar. Não consigo ficar em nenhum outro canto da casa. Dou fortes tragadas e observo o movimento que a fumaça faz, eu mal respiro enquanto meus cabelos vão ganhando um pesado cheiro de nicotina. Minha esperança mina à medida que as horas passam. Os olhos ardem e o fígado dói. O gato mia e arranca um pedaço da poltrona, de alguma forma, continuo viva. Uma ingrata cãibra na perna esquerda muda meus planos de amanhecer dentro do banheiro.

Volto pro quarto com uma estranheza na alma, as cores mudaram e sequer pintei as paredes, a sensação de não pertencimento é grande. Olho pro lado direito da cama, televisão e imagem de nossa senhora da conceição pendurados, edredom amarelo e um livro do Leminski na cabeceira. O relógio marca 3 da manhã, tento adivinhar seu paradeiro e, num surto de loucura, abro a porta com a cara amassada, uma camisola de cetim, a desilusão amargando na boca e desço a João Homem em direção à Rio Branco. Ignoro olhares preconceituosos e irônicos e, eventualmente, me defendo à base de palavrões e gestos obscenos. Chove torrencialmente. Sento nas escadas à sua espera e observo o movimento da Rua Felipe Nery, horas depois você reaparece com uma garrafa de cachaça vazia na mão e um big Mac pela metade.

6 comentários:

dudv disse...

Muito bom conto.

Aline disse...

oi rachel!
parabens pelo blog.
pena nao ter ido na pedra do sal.

mas nao fui por mera confusao deste meu cerebro oco, conforme já disse no orkut.

quem sabe, além de conhecer novos artistas, conseguiria exorcizar uns demonios...


bjss moça!

Gustavo do Carmo disse...

Conheço este texto. Muito parecido com o que você me mandou para eu postar no meu blog.rs

Wellington Oliveira disse...

Bela companhia de leminski...

sabina anzuategui disse...

Lindo final.

Heyk Pimenta disse...

olha,
até quando a gente vai precisar continuar escrevendo o adjetivo antes do substantivo? Sabe, a gente já não usa isso na fala e aí eu acho que também não precisa usar na escrita, dá um tom de artificialidade da porra.

Mas de resto é bem resolvido o texto, rapaz. Bem legal. Cachaça, bic mac... e tal, as ruas do centro. Bem legal.
ah , e tira esse negócio de confirmar letrinhas aqui que é um saco.