sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Fragmentos de existência

Chegou de cabelos molhados, unhas pintadas de uma cor semelhante ao rosa, ou talvez lilás, um olhar obtuso de matutar sofismas e uma ferida na coxa direita que sua saia curta e atochada não conseguia esconder. Prendi meu olhar atento às suas carnes volumosas por algum tempo, me dei ao trabalho de vasculhar seu corpo detidamente até onde suas roupas mínimas permitiam e teci um comentário. Ela me olhou sem resquícios de alma ou coisa que o valha, tirou o canivete do sutiã e pôs em cima da mesa. Eu, ainda olhando, perguntei se estava com fome. Disse que tinha comida na panela, que tinha feito angu. Sem resposta, acendi um cigarro e comuniquei o cancelamento do nosso plano de saúde.

Dei umas quatro baforadas, levantei do sofá, dei mais cinco baforadas, traguei uma e fui a sua direção largando guimbas pela casa. Ela, se esquivando felinamente, abaixou a cabeça, passou a mão pelo pescoço e virou. Pus a mão, com o cigarro entre os dedos, em seu queixo, ergui seu rosto e fitei seus olhos com profundidade até então desconhecida. Fiquei assim por instantes, nenhuma palavra dela, nenhuma minha. Noite de silêncio e fumaça! O que dizer a ela? Que a esperei por toda a noite ali, sobre um estofado com sinais de mofo? Que bebi metade do meu salário numa noite desgraçada de ausências? Que revirei seus pertences e chorei feito um pirralho desmamado?

Grotesca, arqueou as sobrancelhas. Sacudiu a bolsa e entre preservativos e bilhetes mal- escritos despejou incentivos monetários ganhos à custa de seu ventre provocador e o agonizante arfar de babacas em pêlo. Ela ria. Eu observava. Sem grandes preocupações, disse estar cansada e necessitada de um banho quente. Ressaltei o cancelamento do plano de saúde e anunciei o corte da TV a cabo. Com desdém, seguiu se despindo. Ao tirar a roupa percebi uma larga marca de dentes próxima à sua virilha e um forte ranço de angústia entranhada na pele curtida à noite e tempo. Já não dança mais a infeliz, já não sorri... Está morta! Sepulto-a com uma ereção digna e a fodo feito galo de rinha. A separação é iminente.

9 comentários:

eduardo disse...

Imagens fortes, muito interessante.

isaac disse...

o texto é soberbo, um estilo que, com as ainda relativamente poucas leituras que fiz da rachel, me parece seu estilo muito próprio.
a primeira pessoa masculina (e tantas vezes meio descaralhada hehehe) e a descrição muito bem feita dos arredores, geografia interna misturada com pancadas de sensações. isso é literatura a la rachel.

fernanda scarpa disse...

Denso e interessante.
Bj!

Anônimo disse...

Gosto do que você escreve. São sempre situações limites. Interessante o seu conto.

Sylvia Regina Marin disse...

Forte. Fantástico. E, como diria um ex-professor meu, "tem pegada" - como aliás, tudo que você escreve.
Sua sempre admiradora,
Sylvia

Victor Meira disse...

Legal, Rachel, bom demais. Chapei como eu não chapava há uns. "um olhar obtuso de matutar sofismas", "o agonizante arfar de babacas em pêlo"... Tudo muito inspirado, cheio de figuras boas. A descrição do desejo à carne, no início, é mágica. No fim ainda rola uma necrofilia metafórica. Os atos, os gestos. Tudo muito condizente. As razões, as personagens. A fumaça e o cheiro de uísque bebedor de salários, pairando. A desgraça. O caso e o desespero. A câmera sempre objetiva, filmando, com o foco na cena, não em um personagem específico.

Desesperador.
Ótimo, legal demais.

Felipe Malta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Malta disse...
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Felipe Malta disse...

Intenso!
Intensa.